quarta-feira, setembro 08, 2010

Partida

Ninguém parte definitivamente
Ficam traços da passagem
Marcados em muita gente.

Ninguém sai do palco
Sem deixar um legado
Fica o que foi produzido
Fica o que foi registrado.

E assim, seja no brilho da glória
Seja em um sussurro da história
Ninguém parte definitivamente
Sempre fica um pouco de cada
na lembrança permanente.

sexta-feira, julho 23, 2010

Nativismo

Nativismo

Eu sou um homem sem terra
não tenho raiz, nem tenho chão
não me enternece a saudade
de lugar ou de um rincão.

Fui andarilho da vida
mil lugares visitei
mil chegadas, mil saídas
em nenhum deles fiquei

Vivo assim como uma moringa
que não tem àgua por dentro
duro pote de cerâmica
que não abençoa o sedento

Mas o céu que me acompanha
é o mesmo pra todo lado
é o que encobre as querências,
as areias e o banhado
Que também cobre os rios,
as baías e os sertões
É o céu que abençoa tanto a um
quanto às muitas multidões.

E então meu coração se apacenta
esqueço o sapato e fico com o chapéu
Pois se sou um homem sem chão
Não sou um crente sem céu !

domingo, janeiro 24, 2010

As cores

As cores, continuarão coloridas
mas não com a mesma vivacidade,
não com a mesma vida.

Os sons, continuarão se propagando
mas não nos mesmos tons
nem à mesma velocidade

O mundo pra mim agora está diferente
e ninguém sabe, e ninguém sente.

É assim com todo mundo...
Respiramos, comemos e festejamos...
Mas chega o dia,
Em que as cores,
Não serão mais as mesmas

quinta-feira, janeiro 21, 2010

Meu Pai


Meu pai desencarnou dia 17 de janeiro de 2010. Estou ingerindo o elixir da saudade na maior concentração que já experimentei na presente vida. Confesso que no meu íntimo desejava que ele ficasse um pouquinho mais. Mas não deu... Deus em sua justiça estabeleceu o momento da partida. Afora essa pequena tristeza, sinto muita felicidade em perceber quem foi meu pai... Para mim, para meus familiares e para o mundo.

Meu pai, Jessé Braz Cavalcanti, nasceu em 28 de junho de 1940 em Recife. O mundo estava na segunda guerra mundial, enquanto ele dava os primeiros passos numa família tradicional e seguidora da Assembléia de Deus. Teve uma infância típica das crianças daquela época, com muitas atividades de rua. Desde pequeno demonstrou sua inteligência aguda e veloz, porém, como ele mesmo dizia, seu espírito ativo e enérgico direcionava a inteligência para caminhos tortuosos. Com a benção de Deus, teve na sua vida a forte presença do Irmão Braz, Meu avô Porfírio, que conseguiu direcionar todo o potencial do meu pai para a retidão, o trabalho o desapego material e a benevolência.

Ele aprontou muito. Existem tantas histórias de suas danações que não é possível contá-las todas... mas imaginem do que era capaz alguém que destelhava a casa para poder regressar ao seu quarto sem que meu avô percebesse ? Mas meu avô percebia. Escutando essas histórias de suas danações e das correções respectivas pude perceber o quanto meu pai amava meu avô e como muito do seu Porfírio passou pra ele e com certeza para mim.

Meu pai cresceu, e desde os 13 anos aprendeu o valor do trabalho honesto. Seu primeiro emprego foi numa oficina que fazia manutenção de geladeiras, e desde então se apaixonou pela arte de consertar tudo, desde relógios até tratores da caterpilar, em minha casa estava sempre consertando alguma coisa, era fogão, máquina de lavar, ventilador, tomada, carro... tudo, meu pai tinha capacidade e inteligência para consertar qualquer mecanismo ou motor, fosse elétrico ou a combustão...

O serviço militar obrigatório foi na Força Aérea, onde uma vez se escondeu em uma avião para ir ao Rio de Janeiro, mas sua realização profissional se deu no Exército Brasileiro. Muito embora sua arma fosse comunicações, sua paixão por motores o levou a manutenção dos tratores e viaturas das OM's onde serviu, e mesmo na 1ª CIA COM em Manaus, ele trabalho na oficina. Meu pai colocava a mão na graxa, desmontava e montava qualquer motor e caixa de marchas... Muitas estradas barsileiras do nortdeste e da região norte abertas na década de 1970 tem o suor e a dedicação dele em seus pavimentos. Serviu em algumas OM's, mas as que eu tenho em minha memória são o 3º BEC (Picos) onde vi o mundo, CIGS (Manaus) um quartel com zoológico, 1ª CIA COM (Manaus) onde eu virei um jipe dirigindo com 8 anos de idade, 8º BEC (Santarém) com a vila na serra do Piquiatuba, CMB (Brasília) onde eu estudei e lanchava junto com ele, e CePEX (Brasília). Foi feliz em todas, mas acredito que suas melhores recordações são dos dois BEC's onde serviu, posto que a imensa maioria de suas histórias vem desses dois batalhões... eram muitas histórias, muitas das quais ouvi nesses últimos anos, principalmente nos churrascos dos meus aniversários... Agora percebo a real felicidade daqueles momentos.

Para mim, a maior virtude do meu pai, seu maior ensinamento, além do amor pela família, foi, é, e sempre será o desapego pelos bens materiais. Logicamente ele não era nenhum relapso nas questões relativas a bens, mas ele nunca priorizou o dinheiro e nem a aquisição de bens... o que ele priorizou mesmo, foi fazer o BEM aos outros... Outro dia eu descobri que ele tinha uma conta secreta na farmácia do 3º BEC onde pagava os remédios dos civis do batalhão em dificuldades financeiras, cansei de ve-lo consertar de graça e muitas vezes comprando as peças carros de pessoas sem condições de pagar o conserto e nem as peças, ajudou muito minhas tias e tios... se desdobrava para que nenhuma pensionista do pessoal civil fosse prejudicada por qualquer que fosse o motivo, para meu pai, os processos em sua mesa eram mais que números, eram pessoas.

Meu pai sempre me apoiou em minha vida, sempre se preocupou com meus passos, sempre me ensinou... foi um anjo encarnado que Deus colocou em minha vida e até nos seus últimos dias ele estava com o espírito ativo em um corpo debilitado, gasto por uma vida intensamente útil para ele, para a família e para o Brasil.
Nenhuma homenagem que eu lhe faça será jamais suficiente. A minha maior homenagem será seguir-lhe os passos de honestidade, trabalho e amor ao próximo. Isso mesmo, mesmo sem ser um frequentador de casas religiosas meu pai sempre seguiu o ensinamento crístico de fazer o bem sem ostentação.

Sei que em breve ele estará na ativa novamente. E até o nosso reencontro eu irei me acostumando a conviver com a saudade. É difícil separar-se do seu anjo guardião encarnado. Experimento sentimentos e sensações que nunca experimentei antes, pelo menos não nessa intensidade. Graças a Deus, tenho ele em minha vida. E que Deus nos permita no tempo acertado por Ele, que possamos trocar mensagens... afinal uma das coisas que ele descobriu e usou bastante foram os e-mails... Que a graça de Deus nos conceda o lenitivo de trocar e-mails astrais com ele.

Papai, fica com Deus.

E sem preocupações sexistas... um beijo do seu filho que o ama.

Marquinho.